Quer comprar no Submarino? Entre por aqui e eu ganho 8%.

O que você ainda está fazendo aqui? O LLL mudou de endereço. Atualizem bookmarks e links.

Novos posts, agora, só em
http://www.interney.net/blogs/lll

Ou então, assine o RSS: http://feeds.feedburner.com/LiberalLibertarioLibertino


Saturday, April 19, 2008

Série sobre Racismo Pegando Fogo

Uma série de posts sobre racismo em meu novo blog está gerando bastante discussão. É impressionante como esse tema causa reações extremadas! Dêem uma olhada e me digam o que acham:

  • Usos do Nego
  • Quem Sabe da Ofensa é o Ofendido
  • Ser da Raça Certa I: Você É da Raça Certa?
  • Ser da Raça Certa II: 100% Branco
  • Ser da Raça Certa III: De que Cor É o Personagem?
  • Ser da Raça Certa IV: O Critério Eliminatório
E não deixem de ler os comentários!

Aliás, o que você ainda está fazendo aqui? Esse blog acabou. Posts atualizados só no novo blog!


Saturday, February 9, 2008

Aniversário

Faço 34 anos em uma semana. Se você lê esse blog de graça há anos e quer retribuir, minha sugestão é: dê um presente para nós dois e compre alguns dos meus livros à venda.

Radical Rebelde Revolucionário Onde Perdemos Tudo, por Alex Castro

Se quiser dar um presente só pra mim, minha lista de presentes continua no Submarino. Vale a pena visitar, nem que por curiosidade. Comentei cada livro.

Além da lista, pode ser qualquer coisa que você ache que eu gostaria ou que tem a ver com os meus textos. Alguns dos meus livros hoje favoritos foram sugestões e presentes dos leitores. Hoje em dia, meus principais interesses são: escravidão, situação do negro no Brasil, empregadas domésticas, Cuba.

Que Machado de Assis te abençoe.


Tuesday, February 5, 2008

Empregadas & Escravos, Romance em Andamento

Acabei de postar a terceira versão, ainda incompleta, de A Morte do Cachorro, primeira história do meu romance em andamento Empregadas & Escravos. Quem preferir esperar ficar pronto, eu entendo. Esse rascunho é mesmo só para curiosos e estudiosos do método de composição. Se quiserem bater papo sobre esses assuntos, eu adoro, claro.

Enfim, o texto é bem experimental e nem tudo funciona. Não preciso de gente que me passe a mão na cabeça (minha avó já faz isso, ela diz que tudo o que eu escrevo é lindo), mas que me ajude a identificar o que não funciona. Essa conversa com leitores inteligentes e críticos ao longo do processo ajuda MUITO! Então... HEEEELP!!!!

O blog do livro é só para convidados: basta estar logado no Google/Blogger/Orkut para entrar. Os compradores do meu livro de contos Onde Perdemos Tudo também têm direito a convite, basta pedir.

Um trecho:

Manoel dobrou ao centro, desceu o corredor, deslizou pelo carpete, armadura chinesa da escola cusquenha, richaud de petit bronze estilo Companhia das Índias, mesinha de cristal murano Luis XVII, desviando, desvelando, desencostando, espadas de mármore e lanças de madrepérola, brasões familiares com desenhos cubistas em flâmulas de porcelana

(pois é como eu lhe dizia, Manoel, a estrela-de-davi simboliza o compromisso de minha família com a terra, o javali representa nosso mecenato cultural português honra nobreza porque família linhagem (Manoel?) conhecidos como Mata-Mouros o mais importante castelo (Manoel?) o duque da Torre de Ramires feudal batalha honra Manoel?, você está prestando atenção, Manoel? Estou lhe contando a história da minha família!)

até desembocar na sala densa, sótão térreo, santuário-depósito, grossas cortinas de mármore carrara bloqueando gelosias art deco, cadeiras de prata dez dinheiros sobre tapetes biedemeyer , espevitadeiras de sèvres e escarradeiras qialong

(Flávia, você não pode mais entulhar nessa sala todas as quinquilharias que a gente não quer lá no Rio! Esse biombo (de vetri sommersi azul cobalto duplo soprado) não era pra jogar fora, Flávia? Eu não consigo andar na minha própria sala, Flávia!)

Sem encostar em nada, sem nem considerar sentar no sofá de alabastro French Country, desejando poder flutuar sobre o tapete de bronze rouge de fer, Manoel discou
Empregadas & Escravos: A Morte da Cachorra: terceira versão incompleta.


Sunday, February 3, 2008

Elogio à Beleza

Um escritor argentino, autor do livro de memórias "Feio", está querendo criar um imposto sobre a beleza. Segundo ele, os belos obtém tantas vantagens adicionais que é justo que paguem impostos adicionais.

Obviamente, a proposta é imbecil mas, segundo o feioso autor, a idéia é provocar um debate. Então, vamos a ele: eu discordo. Mesmo sendo do Rio, a cidade mais obcecada com beleza física do mundo, eu ainda assim acho que a beleza anda menosprezada.

Se eu subo na vida pela minha inteligência, ou pela minha força física, ou pelo meu talento musical, ou até mesmo pela minha capacidade de fazer gols, tudo bem. Mas, de algum modo, subir na vida pela beleza é visto como algo baixo, leviano, fútil, sem valor, anti-meritocrático.

Quantas mulheres feias já não apontaram pra superiores gostosonas e acusaram: "Você só foi promovida por ser linda!"? Mas, por outro lado, quantas vezes homens burros apontaram para superiores e acusaram: "Você só foi promovido por ser mais inteligente que eu!"? Ninguém se sente injustiçado ao ser preterido pelo inteligente ou pelo talentoso, mas se perderem pro lindo, deus me livre, é um absurdo, um horror, uma injustiça!

Esse mito de que vencer pela beleza é menos meritocrático do que vencer pelo talento ou pela inteligência é uma das maiores mentiras que o lobby dos inteligentes já inventou.

É como o maneta tentando convencer o perneta a disputar uma corrida: ganhar pela queda de braço não conta. Ou a onça tentando convencer o ouriço de que seus espinhos são anti-esportivos: ele tem que encarar a onça de igual pra igual. E todos sabemos como acaba essa história.

O porco-espinho, como qualquer animal, tenta vencer usando as armas que possui, assim como os inteligentes tentam vencer pela inteligência e os talentosos, pelo talento. Errado são os lindos que caem no conto de que suas armas não tem valor, que vencer pela beleza não conta.

Se eu tivesse pernas pra cruzar ou decote pra mostrar, eu usava com a mesma naturalidade que uso minha lábia e minha cara-de-pau para conseguir tudo o que eu quero.

* * *

Comentário extremamente preciso de um amigo:

"Bem, nada mais justo então do que os inteligentes usarem sua arma, a inteligência, para convencer os belos a não usarem as deles."
Concordo. Feios e barrigudos, só resta mesmo aos inteligentes tentarem mudar as regras do jogo. Burro é quem acredita. Entretanto, eu sou vira-casaca: acho gente inteligente um porre e idolatro a beleza. Além disso, ser agente duplo para os belos tem muitas vantagens: ninguém sabe quem foi Michel Foucault ou André Brissac, por exemplo, mas os favores sexuais mais do que compensam.

Assim como o mito do valor inerente da leitura só existe porque as pessoas que gostam de ler têm um lobby mais influente do que as pessoas que gostam de jogar bola em terreno baldio, esse mito da beleza como método não-meritocrático de subir na vida só existe porque são os feios que escrevem pros jornais e fazem as leis.

História da Beleza        Ditadura da Beleza

* * *

Apêndice Socrático

Antes de publicá-los, sempre mostro meus textos para meus contatos no MSN. A conversa abaixo foi com uma das primeiras leitoras do Elogio à Beleza:

Mas, Alex, o cara pode se revoltar pela beleza alheia pelo simples fato de que a pessoa já nasceu bonita... Ou seja, nasceu em vantagem. É diferente de quando alguém vence pela inteligência, isso é adquirido ao longo da vida...

Mentira, lenda. Inteligência, beleza, talento, a gente nasce com eles todos, são difíceis de manter, e vamos refinando-os ao longo da vida. Nenhum é de graça, nem cai do céu. Pergunte pra alguém lindo de verdade o tempo e dinheiro que eles gastam nisso.

Sim, claro. Mas por exemplo, mulher quando vai procurar emprego, além da mínima formação exigida pro cargo, ela precisa ser bonita na maioria dos casos. Homem não.

Isso é escroto.

Eu acho horrível, mas eu vejo isso na minha área. Eu trabalho com TI e sempre sou chamada pras etapas seguintes das entrevistas pelo simples fato de, 1) ser mulher e 2) não ser gorda, espinhenta, ou com cara de nerd. Agora, se tu colocas um homem pra fazer entrevistas na area de TI, os caras não vão se importar com aparência...

Você devia achar isso bom, é uma vantagem comparativa pra você. Eu sou completamente incapaz de ser contra algo que me favoreça.

Mas daí isso contraria tudo o que me ensinaram a vida toda! Eu deveria vencer por méritos acerca da minha capacidade, não da minha cara ou da minha bunda!

O problema é que isso que te ensinaram foi o lobby dos feios querendo te convencer que a SUA vantagem competitiva não conta, ué. O texto é justamente sobre isso. Sua bunda é tão sua quanto seu cérebro e você obter vantagens por qualquer um dos dois é igualmente válido. Sua bunda não é menos sua do que o seu cérebro.

Isso é certo, reconheço. Mas daí me vem a dúvida: eles querem que eu trabalhe pra eles de verdade ou que eu sirva de deleite no escritório? Eu vou ser contratada pra o quê? Claro que daí alguém pode me dizer que eu posso surpreeendê-los e me mostrar realmente capaz... Mas até la eu não posso deixar de me sentir uma boneca de pano ou uma peça de leilão, sei lá.

Se te pagarem salário, do que isso importa? O importa é entrar, lá dentro você pode mostrar que é mais do que uma bela bunda... E, se passarem a mão nela, você ainda chama a polícia e ganha uma indenização polpuda. Mas minha grande dúvida é outra: por que você acha que seu cérebro vale mais do que sua bunda? De onde veio esse ranking de partes do corpo? Isso faz algum sentido?

Bem, eu gostaria de usar minha bunda pra outras finalidades... Só que é impossível esconder essas coisas, né?

Bem, a bunda é sua. Eu só quero dizer que ela é tão sua e tão válida quanto seu cérebro.

Ok, entendi. Mas ainda assim não me conformo, parece tão imbecil...

Mas isso é só porque te ensinaram um dualismo cartesiano e ultrapassado, essa história de que somos feitos de corpo e alma, um alto e sublime, outro baixo e sórdido, e portanto o que você consegue com o corpo também é baixo e sórdido, e as únicas coisas que teriam valor verdadeiro seriam as que você consegue com a alma, com o intelecto, etc. Mas essa dicotomia é falsa, você é uma só. Você é tudo isso o tempo todo.

Bem. o ruim disso é que eu não sei o que falar pros meus colegas quando eles dizem que eu consigo as coisas só porque eu sou mulher. Isso é claramente injusto já que eles podem fazer o mesmo que eu... Eles preenchem os requisitos tanto quanto...

Você pode responder que para cada coisa que você consegue por ser mulher tem outras tantas que você não consegue por ser mulher.

Daí eu penso "ok, a decisão do empregador é só dele, quem se importa se ele quer mais é uma visão feminina na empresa do que alguém capacitado?" Só que é MUITO injusto com os outros... Eles nasceram daquele jeito, não é culpa deles...

O mundo é injusto. Um emprego que escolha o mais capacitado vai ser injusto com os poucos capacitados. Se escolher os inteligentes, vai ser injusto com os burros. Se escolher os talentosos, vai ser injusto com os que nasceram sem talento. Se escolher os melhores, vai ser injusto com os piores. Qual é a solução?

Ai, Deus! Tu me deixa sem respostas!

* * *

O LLL mudou! Atualizem seus bookmarks e links! O novo endereço é:

http://www.interney.net/blogs/lll


Friday, February 1, 2008

Malvada, Fútil e Exibicionista

Quando eu digo que gosto de mulheres malvadas, a maioria dos leitores simplesmente não entende o que quero dizer com isso. Não tem problema: o objetivo do comentário não é explicar o mundo para os desavisados, mas atrair os entendidos.

Eu me revelo justamente para descobrir quem vai bailar comigo e quem vai se encostar na parede. Muita gente me acha esquisito? Claro. Essa é a idéia. Não tenho medo de rejeição. Ser rejeitado pelas pessoas pequenas só faz bem. Os pequenos se afastarem de mim por conta própria me poupa o trabalho de espantá-los a pauladas.

Troco alegremente a rejeição dos pequenos pela aceitação dos grandes.

Ela
Talvez a melhor e mais fascinante mulher má da literatura, em um empolgante livro de ação à moda antiga.

* * *

Um dos últimos exemplares da revista da Mulher-Gato abre com uma loira gostosa e peituda falando numa webcam: ela está mostrando uma pobre menininha, também loirinha e angelical, amarrada e amordaçada numa cadeira. Ela se apresenta como Blitzkrieg, a mais nova, maior e mais malvada vilã de Gotham City e, para provar, vai matar a pobre e inocente menininha ao vivo, com transmissão pela internet:

"This little girl is going to die and there's nothing you can do it about it. Don't bother trying to figure out why she's the one. It was a totally random thing, believe me. See, this has nothing to do with her. This is all about me!"
Total e completo egocentrismo: só ela importa. A menina é menos que uma, somente um meio para seu fim, sua glória, sua vitória.

Blitzkrieg

A Mulher-Gato (a nova Mulher-Gato, aliás, toda atrapalhada) cai do telhado aos pés da vilã e ela pergunta, em uma daquelas perguntas cruelmente irônicas e bem-humoradas que deixa claro qual será o destino da heroína:
"Any last words for the million-plus viewers glued to their laptops?"
Nada mais sexy do que ironia de vilã.

Blitzkrieg

Quando a Mulher-Gato acorda, Blitzkrieg, óbvio, está se gabando do seu plano maligno: comprou aquelas luvas que emitem raios de um grupo terrorista e escolheu o nome Blitzkrieg por ser assim meio alemão e meio sinistro: "sounds sort of ominous". Não é lindo uma mulher que quer soar "ominous"?

Seu plano é simples: depois de estourar os olhinhos castanhos da menina pela nuca (sua palavras!), toda a cidade vai falar nela! E ainda pergunta: "um plano doce, não?" Eu quase posso ouvir sua voz, igualmente doce, falando palavras tão incrivelmente cruéis.

Blitzkrieg

O plano, apesar de simples (matar uma menina inocente ao vivo e ficar famosa) parece extraordinariamente cruel e leviano. Assim como a Madrasta Má e tantas outras vilãs, Blitzkrieg é extremamente vaidosa: adora saber que milhares de pessoas estão assistindo-a e pretende matar uma criança inocente só para que a cidade toda fale nela. E está empolgada com seu plano.

Blitzkrieg

A vilã anuncia para a câmera: sim, a pobre menininha ainda vai morrer, mas teremos um novo assassinato antes pra deixá-los com água na boca. Ela aponta suas luvas para a Mulher-Gato com um grande sorriso nos lábios e ainda faz pouco dos esforços da heroína para salvar a menina. Claramente sente prazer em que a Mulher-Gato morra sabendo que deu tudo errado, que ela fracassou e Blitzkrieg venceu e, pra melhorar, que a menina ainda assim vai morrer:
"Think you're pretty smart, don't you? All you did was speed things up. You die now. Then the kid gets it. Happy?"
Blitzkrieg

Mas a Mulher-Gato se desvia dos raios no último segundo e fica apenas muito ferida. Blitzkrieg se impressiona
("Still alive? I'm impressed!")
e diz que, como prêmio por ter sobrevivido mais um pouco e enquanto está se roendo de dor no chão, a Mulher-Gato vai poder assisti-la matando a pobre menininha:
"I'm gonna let you watch me kill your little friend."
Não basta matar as duas, heroína e menininha, a vilã ainda sente prazer em que Mulher-Gato vai ter que assistir a morte da criança que tentou salvar - e que isso vai ser uma das últimas coisas que verá. O sofrimento e frustração da pobre heroína alimentam seu ego. Para a vitória completa e egoísta da vilã, é necessário acabar com todos, não deixar testemunhas: no seu final feliz perfeito, ela sozinha é a dona do campo de batalha.

Nessa hora, naturalmente, ela comete o erro de toda vilã, dá as costas pra heroína ferida, a heroína puxa forças sei lá de onde e acaba com ela. Final feliz. Fim de história.

Blitzkrieg

Enfim, um gibi bem fraco. Mas eu, que coleciono e adoro vilãs, há muito tempo não via nenhuma assim tão exageradamente má, perversamente gostosa, deliciosamente fútil e absolutamente exibicionista.

* * *

Sim, confesso, eu sinto tesão por uma vilã assim como Blitzkrieg, mas ela não existe e, se existisse, seria um monstro que teria que ir preso. O tesão não significa que concordo com suas ações ou que acho que são recomendáveis, bem ao contrário. Meu tesão é por esse arquétipo (aliás, mais velho que andar pra frente) da femme fatale, da mulher má, da diva egoísta.

Por fim, trazendo a questão à realidade, meu verdadeiro tesão é pelas mulheres de carne e osso, lindas e inteligentes, tantas delas minhas amantes e amigas, que também são atraídas por esse mesmo arquétipo, que adoram a fantasia de ser essa mulher e de ter escravos apaixonados aos seus pés para usar e abusar, que gozam com a suprema liberdade de um egoísmo sem limites e de poder não se preocupar com nada nem ninguém, que se excitam ao se imaginar malvadas e poderosas, fúteis e vaidosas, gloriosas deusas do mal.

 Bórgia: Sangue para o Papa     Bórgia: Poder e Incesto
A verdadeira Lucrécia Bórgia com certeza não era tão má assim, mas a Lucrécia ficcional é o máximo.

* * *

Raquel diz que meu Elogio às Malvadas foi uma das coisas mais importantes que já leu e conta a seguinte história: de vez em quando, conversa com suas colegas sobre fantasias sexuais e galãs da moda. Entretanto, enquanto elas sonham com o que fariam com o Brad Pitt na cama, Raquel tem outros desejos inconfessáveis.

Sua fantasia era fazer o Brad Pitt se apaixonar por ela e, depois, humilhá-lo, obrigá-lo a largar sua carreira no cinema, abdicar de tudo só para tê-la, e ela só provocando-o, atiçando-o, e então, quando já não lhe restasse nada, só aquela paixão irreprimível por ela, ela riria na cara dele, diria que agora que ele não é mais um astro, não lhe serve, não lhe tem serventia alguma, o que vai querer com um pobretão inútil desses?, que vá pintar paredes, arranjar mulheres na zona, qualquer coisa assim, mas saia da minha presença agora!, e ele sairia, arqueado, derrotado, humilhado, e o que mais a excitava, nessa sua fantasia, era a idéia de acabar com a vida de um astro de Hollywood por puro capricho, sem motivo algum, e, melhor ainda, ele ter feito tudo voluntariamente, por puro tesão, um tesão que ele carregaria pra sempre, acumulado e frustrado! (No final, ela estava quase sem ar, olhinhos brilhando, voz arquejante.)

Na sua vida civil, Raquel é mignon, educada, quase tímida, se vira ao avesso pelos amigos, faz de tudo para agradar as pessoas. Em suas fantasias, porém, é uma deusa do mal, uma devoradora de homens, cercada por dezenas de escravos devotados que ela joga aos leões depois de abusar sexualmente, adorada e desejada por multidões apaixonadas e sempre frustradas, absolutamente egoísta e mentirosa, interessada somente em si mesma, em seu poder, em sua glória, em sua vitória, em seu final feliz.

Tudo o que ela não é.

    Femme Fatale
Melhor cena: os homens brigando no ar e ela olhando tudo excitadíssima, olhos brilhando, se deliciando no duelo dos machos por ela, verdadeira deusa primitiva esperando seu sacrifício de sangue.

* * *

Para fechar, um trecho do blog Bitchy Jones's Diary sobre a delícia de submeter um homem forte e independente. Quanto maior, mais poderoso, mais másculo, mais amante da liberdade, maior é o prazer de tê-lo sob suas botas:
Male submission is about heroic masculinity and male beauty.

... I’m a straight woman. Men and masculinity turn me on. Maleness. ... And nowhere is this male beauty expressed better than in male submission. Jack doesn’t like pain, doesn’t enjoy suffering at all. But he is hot and hard for being brave. Making noble almost futile sacrifices. Bondage and force. Wanting to contain and constrain. To own. To force. To crush and possess. To venerate. To wallow in. To touch. This is about beauty. Male beauty. Savage beauty. Sexuality so virile and strong it needs to be held back, diluted with chains and cages to make it palatable – otherwise it would be so overwhelming it would be like looking at the sun. It is everything there is and every part of the heart of me. And it’s worth it. Even now.
Se gostou, não deixe de ler The Complete Bitchy Jones, onde ela resume todas as suas idéias mais interessantes. Dica da Rebeca, uma de minhas amigas mais queridas e uma das mulheres mais imaginativamente perversas que já conheci.

     Condessa Vermelha
Uma das graphic novels mais sensuais de todos os tempos. Como não amar Elizabeth?


* * *

15 Personagens de Literatura que Eu Levaria para a Cama

     Mulheres Mais Perversas da História

* * *

Textos relacionados:
Elogio às Malvadas
Meninas Malvadas

* * *

O LLL mudou! Atualizem seus bookmarks e links! O novo endereço é:

http://www.interney.net/blogs/lll


Monday, January 28, 2008

Retomada do Blog e Futuros Posts

(esse é o ÚLTIMO post do velho LLL. O novo LLL está aqui: http://www.interney.net/blogs/lll)

É realmente uma vergonha o abandono do LLL. Durante o segundo semestre de 2007, raramente eu sentei para escrever textos legais, pensados, articulados. Eram sempre coisinhas rápidas, links, fotos, notícias. Mas eu nunca quis que o LLL fosse um blog de comentar noticiário ou discutir internet. Nosso assunto aqui é a natureza humana: amor e sexo, relacionamentos e comportamento, o ciúme e a inveja, a ambição e o medo. Deixemos economia e política para os blogs chatos, celebridades e BBB para os fúteis.

Agora que mudei para o Interney Blogs, decidi tomar vergonha na cara. Esse sábado, sentei a bunda na cadeira, juntei todas as minhas notas (anoto idéias pra textos até em comprovante de cartão de crédito) e escrevi por dois dias, sem parar. Quando o fim de semana terminou, eu tinha 41 textos prontos: 15 mil palavras em 57 páginas. Todas aquelas pequenas coisas que eu já estava há meses querendo escrever e nunca tinha tempo. Textos com começo, meio e fim, falando sobre comportamento e natureza humana: nada imediato, nada que ficaria velho, nada que precisaria ser publicado amanhã ou nunca mais. Textos para serem relidos e relambidos, mostrados para amigos e contatos do MSN, para irem ficando melhores com o passar dos dias, até serem finalmente publicados. Textos para que o novo LLL, no Interney Blogs, seja mais como o velho LLL de antigamente.

Para dar água na boca, a lista dos textos. Todos já estão escritos e serão publicados, diariamente, pelos próximos meses. A ordem de publicação é irrelevante. Se houver algum que desperte o seu interesse, pode pedir. Quem sabe ele não vai pra frente da fila?

  • As Certezas do Meu Roommate (I)
  • As Certezas do Meu Roommate (II)
  • "Você Só Vem Falar Comigo Quando Quer Alguma Coisa!"
  • Libertário, Libertino e Casamenteiro
  • Existem Dois Tipos de Pessoas
  • As Notícias que o Corpo nos Dá
  • Água Aromatizada
  • Fãs e Desafetos
  • Pobres Homens
  • Memórias da Bolha
  • Definição de Blogueiro Metido
  • Vaidade
  • Características Menosprezadas da Mulher Perfeita
  • Ciúme e Possessividade
  • A Cara-de-Pau do Professor
  • Padrão de Beleza Diabético
  • Duas Páginas por Dia
  • Racismo às Avessas
  • O Bom Egoísta É Egoísta Até ao Presentear
  • Vocês Páram o Que Estão Fazendo pra Atender o Telefone?
  • Fotografando Pés (I)
  • Fotografando Pés (II)
  • Encontrando o Companheiro Perfeito (I)
  • Encontrando o Companheiro Perfeito (II)
  • Ainda a Busca pela Pessoa Certa
  • Mulheres que Põem os Pés em Cima das Coisas
  • Mulheres de Direita e de Esquerda (I)
  • Mulheres de Direita e de Esquerda (II)
  • Fetiche de Star Wars
  • A Direção da Filhadaputice
  • Solteiras
  • Pessoas que Carregam Tudo nas Costas
  • Malvada, Fútil e Exibicionista
  • Patriotismo Ignorantismo
  • A Pior Idéia de Todos os Tempos
  • Usabilidade da Pornografia
  • A Masturbação Está Acabando com a sua Vida!
  • O Regionalismo Brasileiro de 30
  • Por Amor
  • Depressão
  • "A Mulher de Todos" e o Amor
Acho que as próximas semanas vão ser bem interessantes. Visitem diariamente o novo LLL e confiram:

http://www.interney.net/blogs/lll

(esse é o ÚLTIMO post do velho LLL. O novo LLL está aqui: http://www.interney.net/blogs/lll)


Wednesday, January 23, 2008

Bom Crioulo, de Adolfo Caminha (II)

   Bom-Crioulo Identidades Sexuais Subvertidas

Segundo Judith Butler, em Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade (1990), atributos de gênero não são expressivos mas sim performativos e, portanto, esses atributos constituiriam de fato a identidade que pretendem expressar ou revelar. Em outras palavras, para Butler, ser homem ou ser mulher, ser heterossexual ou homossexual, não são categorias imanentes, pois não existiria uma essência, digamos, masculina que precederia a existência do indivíduo do gênero masculino: masculino seria quem se comporta de acordo com os padrões de comportamento culturalmente definidos como masculinos. Mais ainda, se não existe uma natureza pré-existente das identidades de gênero, então não existem atos sexuais verdadeiros ou distorcidos, e a própria noção de “gênero verdadeiro” revela-se uma manobra destinada a impor a dominação masculina e a heterossexualidade compulsória.

Romance cuja trama adere estritamente à fórmula naturalista (quem não adere é o narrador, conforme veremos mais abaixo), em Bom-Crioulo os personagens são esquemáticos: ao mesmo tempo, frutos do seu meio-ambiente e reféns de seus instintos. O personagem-título, Amaro, exemplifica bem as contradições da fórmula e as inversões de identidade que ela exige. Por um lado, é o personagem mais ético do romance, agindo sempre com integridade e honestidade - até perder o controle em um acesso de   Problemas do Gênero: Feminismo e Subversão de Identidade J. BUTLER ciúmes na cena final. Por outro, o romance enfatiza reiteradamente que de nada adianta a ética e força de vontade de Amaro: por ser negro, ele é refém dos seus instintos, especialmente dos instintos sexuais; por ser ex-escravo, ele foi corrompido pelo ambiente de degradação moral e social das senzalas, "tornando-se" homossexual. Desse modo, independente de todas as qualidades do personagem, sua tragédia final é inevitável e já se encontra implícita desde o começo da narrativa.

O romance busca um equilíbrio delicado entre as teses cientificistas sobre determinismo biológico e sobre efeito corrompedor do meio ambiente. Ao mesmo tempo em que Amaro é visto como um homem dominado por seus instintos sexuais mais primitivos, o romance também atribui sua corrupção sexual ao ambiente de devassidão das senzalas, que pode ser atribuído, naturalmente, ao fato de serem habitadas por homens dominados por seus instintos sexuais mais primitivos. A partir de sua corrupção, entretanto, Amaro não é mais o mesmo homem que era, com a diferença de ser agora adepto de práticas sexuais sodomitas: pelo contrário, ele sofre uma verdadeira metamorfose conceitual e torna-se uma nova espécie: o homossexual, que surge assim pela primeira vez na literatura brasileira.

De acordo com Foucault, em A História da Sexualidade I: A Vontade de Saber (1976), até finais do século XIX, a sodomia era somente uma categoria de atos proibidos e sodomita, a pessoa que os praticava: não era algo que o definia enquanto ser humano. Entretanto, o homossexual como foi classificado no final do século XIX, torna-se um personagem, um passado, um estudo de caso, um estilo de vida, toda uma morfologia. O homossexual seria esse indivíduo cuja totalidade é definida por sua sexualidade e está presente em todas as suas ações, menos um pecado habitual do que uma natureza singular. O antigo sodomita, que era uma aberração temporária, é transformado no homossexual, uma nova  História da Sexualidade: a Vontade de Saber - vol. 1 MICHEL FOUCAULT espécie definida por uma androginia interna e um hermafroditismo da alma. No Brasil, o termo homossexual aparece pela primeira vez em 1906, onze anos após a publicação do romance, em uma tese médica "Homossexualismo (A Libertinagem no Rio de Janeiro): Estudo sobre Perversões e Inversões do Instinto Genital." (Mendes, 35-36)

A heterossexualidade não é a única identidade subvertida no romance. Amaro é negro, forte, viril, maduro e decidido, enquanto Aleixo, seu jovem amante, é quase uma criança, pequeno, branco, louro, passivo e vacilante. A relação entre eles não é apenas sexual, mas também paternal e professoral. Amaro não vê Aleixo somente como seu amante, mas também como seu pupilo, filho e protegido; Aleixo, por seu lado, se comporta de acordo. Quando Aleixo finalmente troca Amaro por Dona Carolina, parece estar simplesmente trocando um pai por uma mãe: Dona Carolina, velha prostituta, que nunca tinha experimentando nem o amor verdadeiro nem o amor maternal, sente-se atraída mais do que tudo pela fragilidade infantil e inocente de Aleixo. Sob esse aspecto, a competição entre Amaro e Carolina por Amaro se assemelha mais a uma disputa de custódia entre pais divorciados do que a um triângulo verdadeiramente amoroso. Em Bom-Crioulo, pai e mãe, homem e mulher, também não parecem ser o que tradicionalmente são.

Finalmente, ao mostrar o branco, miúdo e louro Aleixo passivo diante do grande, negro e forte Amaro, o autor subverte mais uma vez identidades que seriam tradicionais e auto-evidentes aos seus leitores: nesse ponto, a debilidade de Aleixo ecoa a debilidade do próprio Império, branco e escravocrata, que desaparece sem ter quem o defenda.

Raça e Homossexualismo

Ginway vê no livro uma grande alegoria do país: Aleixo é o Brasil, puro e virgem, corrompido tanto pela nódoa da escravidão, Amaro, quanto pela devassidão do velho mundo, Dona Carolina. (44) Ambas as relações são estéreis, indicando o impasse do cultural e racial do Brasil, incapaz de se perpetuar, incapaz de ser branco como deseja, incapaz de se imaginar mestiço como era. (45) O ideal parece mesmo ser ficar cada raça no seu lugar: quando Amaro considera terminar com Aleixo, sua primeira opção é encontrar uma mulher da mesma cor que ele, para evitar confusões. Depois de estar em um relacionamento tão revolucionário (não apenas homem com homem, mas negro dominante e másculo sobre branco submisso e efeminado), Amaro não quer mais saber de complicação.

É também interessante notar que a questão racial não aparece muito no começo do romance, sendo eclipsada pela questão homossexual. Entretanto, assim que Dona Carolina se junta com Aleixo e ambos passam a ver Amaro como rival e possível inimigo, o pederasta se transforma em negro: Aleixo e Carolina parecem ambos perceber - e mencionar - sua raça pela primeira vez. Diz Dona Carolina:

"Grandessíssimo pederasta! Nunca supusera que uma paixão amorosa de homem a homem, fosse tão duradoura, tão persistente! E logo um negro, Senhor Bom-Jesus, logo um crioulo imoral e repugnante daquele! ... Negro é raça do diabo, raça maldita, que não sabe perdoar, que não sabe esquecer... ... De resto, o caso do bilhete era uma tolice em que ninguém devia pensar: - Cousas de negro..." (cap.X)

Até mesmo Aleixo, que antes o amava e dependia de sua proteção, agora vê nele apenas uma fera, um animal:

"Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara! ... Se Aleixo havia de se desgraçar nas unhas do negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse." (cap.VIII)

Como aponta Leonardo Mendes, a guerra que Dona Carolina empreende contra Amaro parece justificada mais por uma indignação estética que moral: "o crime que o negro cometia era violar e penetrar aquela delicadeza virginal; sua homossexualidade desbaratava um recolhimento tão ingênuo e discreto." (159)

O romance naturalista, quase que por definição, causa anxiedade e desassossego. Em Bom-Crioulo, não apenas a relação homossexual é escandalosa, mas também a inversão do esquema amo/escravo, talvez ainda mais escandolosa para a época: Amaro, em todos os aspectos, é macho, forte, dominador, enquanto que sobram para Aleixo as qualidades submissas dos escravos e das fêmeas: dissimulação e sensualidade:

"Uma cousa desgostava o grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se contentava em possuí-lo a qualquer hora do dia ou da noite, queria muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma “mulher-a-toa” propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria ver o corpo..." (cap.V)

Talvez a ilusão de ótica mais interessante de Bom-Crioulo seja justamente a de apresentar um caso tão escandaloso (o amor homossexual entre Aleixo e Amaro) que faz com que outras relações também escandalosas no romance pareçam aceitáveis na comparação. Uma ex-prostituta quarentona, que vive amigada com um homem casado que a sustenta, decide ter um amante adolescente ("queria agora experimentar um meninote, um criançola sem barba, que lhe fizesse todas as vontades," cap.VI), um rapaz que ela sabia ter vivido maritalmente, em pecado, com um negro por um ano. Em qualquer outro romance do período, essa relação seria escandalosa. Em Bom-Crioulo, ela jamais é nem problematizada. Na comparação com o resto do enredo, parece aceitável e normal, quase conservadora:

"D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima é para o seu dono - leal, sincero, dedicado até ao sacrifício." (cap.VIII)

A relação de Aleixo com Dona Carolina é descrita em termos animalizados, brutais, cruéis: "cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-lo na cama" (cap.IV). Em outro momento (cap.VI), ela chega a ser descrita como um basilisco. Já a relação de Aleixo com Amaro é quase artística, contemplativa, religiosa: Amaro contempla e adora Aleixo como se ele fosse uma obra de arte, um deus grego:

"Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual. ... Todo ele vibrava, demorando-se na idolatria pagã daquela nudez sensual como um fetiche diante de um símbolo de ouro ou como um artista diante duma obra prima. Ignorante e grosseiro, sentia-se, contudo, abalado até os nervos mais recônditos, até às profundezas do seu duplo ser moral e físico, dominado por um quase respeito cego pelo grumete que atingia proporções de ente sobrenatural a seus olhos de marinheiro rude." (cap.V)   Bom-Crioulo

O romance mostra a relação homossexual entre Amaro e Aleixo de modo muito mais sensível, abstrato, puro, singelo e verdadeiro do que a relação animalesca e sexual entre Aleixo e Dona Carolina. (Ginway, 45) Terá o autor se dado conta disso?

Por fim, o romance jamais se posiciona quanto à espinhosa questão da origem do homossexualismo. Enquanto a sexualidade de Amaro é um dado do romance, a de Aleixo é cuidadosamente construída pelo Bom-Crioulo e depois desconstruída por Dona Carolina. Afinal, para Adolfo Caminha, a homossexualidade era nata ou era adquirida? O romance não se coloca. O narrador não consegue se decidir. (Howes, 57)

(continua...)


Tuesday, January 22, 2008

Ajuda no Template - Update

Sério, eu não aguento mais o Comentar e esse maldito bug de não mostrar o número de comentários. Fechei com o Ina de ir pro Interney Blogs em fevereiro do ano passado, e achei que não valia a pena consertar. Mas o tempo passa, ainda estou aqui, e o problema está me enchendo o saco. Não quero apagar o Comentar, porque tem um valioso arquivo de 5 anos de comentários, mas queria só que os comentários do Blogger aparecessem na página principal do blog, e nada! Só aparecem nas páginas individuais de cada post. Estou no msn, HEEELLPPP!

Update: Todos os problemas foram resolvidos graças ao maravilhoso Roberto.


Monday, January 21, 2008

Dois Fetiches, Uma Modelo

Jezebel Jezebel Jezebel Jezebel

Ateus nas Trincheiras

Uma piadinha americana diz que não existe "ateu em uma trincheira". Pois bem, para negar essa besteirada, um grupo de militares, bombeiros e policiais criou a organização "Ateus nas Trincheiras" (Atheists in Foxholes) e agora estão processando o Exército Americano contra a crescente evangelização das fileiras, protestando inclusive várias ocasiões de "preces forçadas". Via de regra, eu acho que ateu, quando se organiza, fica mais chato e fanático que crente, mas apóio essa iniciativa.

Atheists in Foxholes

Atheists in Foxholes

Atheists in Foxholes

Brasileiros em Nova Orleans

"Brazilian Boom", matéria de hoje no jornal local de Nova Orleans, The Times-Picayune. E, nesse link, comentários dos leitores.

Gabeira 2008



Tudo o que eu poderia dizer, o Pedro Dória já disse aqui. Gabeira, precisamos de você. Site e email do deputado.


Sunday, January 20, 2008

Bom Crioulo, de Adolfo Caminha (I)

   Bom-Crioulo O romance Bom-Crioulo (1895), de Adolfo Caminha, surge em um contexto histórico conturbado: poucos anos antes, desapareciam dois símbolos centenários da nacionalidade brasileira, a monarquia e a escravidão. Nesse momento em que a nação é subitamente forçada a se reinventar e se redefinir, é sintomático e revelador o lançamento de um romance que questiona e inverte uma série de identidades tradicionais: homem e mulher, pai e mãe, heterossexual e homossexual. No trabalho a seguir, vamos considerar a repercussão crítica do romance, analisar a junção do elemento duplo-outro (homossexual e negro) e postular que, na verdade, o personagem mais dramático do romance, que lhe fornece boa parte da sua tensão, é o narrador onisciente em terceira pessoa.


Em 1886, durante sua viagem de instrução na Marinha, Adolfo Caminha teve oportunidade de conhecer os Estados Unidos, posteriormente escrevendo um dos primeiros livros de viagem que se tem notícia escrito por brasileiro, No País dos Ianques (1894). Nessas crônicas despretensiosas, podemos ver claramente o espírito naturalista do autor, que depois se refletirá em suas obras. Primeiro, ele elogia a independência e o desembaraço das mulheres americanas. Por seus assombrados comentários, podemos somente imaginar como eram oprimidas as mulheres brasileiras da época:

"Ah! sim, vi umas graciosas caixeiras acudirem pressurosas e desenvoltas, com o desembaraço próprio de sua raça, aos compradores, coisa aliás muito simples, muitíssimo natural, mas não no Brasil, onde as senhoras estão eternamente proibidas de competir com o outro sexo na vida pública. ... Às nove horas da manhã, que digo eu! às seis horas, depois de ligeira refeição, encaminham-se para o trabalho quotidiano, felizes, satisfeitas, envolvidas em grossas capas de lá no inverno, a bolsa de um lado, sem sequer fazerem-se acompanhar. Vão direitinhas de casa para a loja ou escritório, sem que ninguém lhes dirija uma pilhéria, sem que ninguém as desrespeite, e, à noite, recolhem-se da mesma forma, sempre alegres, transpirando saúde, a face rubra. ... O proverbial desembaraço das americanas manifesta-se a todo instante. Prontas sempre a repelir com dignidade um ataque à sua honestidade, elas se dirigem aos homens em qualquer parte, na rua ou nos salões, com a mesma simplicidade com que o fazem às amigas. O respeito entre os dois sexos, nas classes superiores, é um dos principais caracteres do povo americano. Habituados, homens e mulheres, a uma educação livre, vivendo uns e outros em comum desde criança, as americanas não se confundem nunca diante dos homens. ... Os pais depositam confiança ilimitada nas filhas. Deixam, sem escrúpulo, que elas saiam a passeio, de carro ou a pé, só ou em companhia de um amigo da casa, na certeza de que elas saberão zelar a sua castidade. Os raptos e os defloramentos são raros, não sei se devido ao temperamento da raça ou se à inflexibilidade da Lei. (caps.VI-VII, grifos meus, a não ser quando dito)

O outro lado da moeda naturalista é o racismo cientificista e determinista de Adolfo Caminha, visível em alguns trechos:

"A Escola de West Point é, sem exagero um exemplo raro de estabelecimentos desse gênero. E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brasileiros — raça degenerada e linfática — víamos criar-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independência. ... É talvez um duro sistema de educação esse, mas incontestavelmente o mais acertado e eficaz. Simples questão de raça..." (cap.XV)

Em 1895, Caminha publica o romance Bom-Crioulo, cuja primeira edição se esgota rapidamente. O livro só será reeditado quarenta anos depois, em 1936, em uma edição bastante deturpada que será apreendida pelo Estado Novo sob alegação de ser comunista. Finalmente, com a terceira edição, em 1956, o livro é canonizado e não sai mais de catálogo. (Azevedo, 117, Mendes, 195) As primeiras reações da crítica são virulentas. José Veríssimo, respeitado crítico literário, é um bom exemplo da recepção do livro:

"Bom Crioulo é pior do que um mau livro: é uma ação detestável, literatura à parte. ... Como quer o sr. Adolfo Caminha que seja respeitado e estimado um homem que, sem utilidade alguma social, passou longos dias ocupado em analisar e discutir a psicologia improvável de nauseantes crimes contra a natureza, e tenta depois com isso despertar em nós o arrepio da curiosidade impura e mórbida?" (citado em Howes, 44)

Valentim Magalhães, editor da influente revista A Semana, escreveu:

"Ora, o Bom-Crioulo excede tudo quanto se possa imaginar de mais grosseiramente imundo. ... não é um livro travesso, alegre, patusco, contando cenas de alcova ou de bordel. ... é um livro ascoroso, porque explora - primeiro a fazê-lo, que eu saiba - um ramo de pornografia até hoje inédito por inabordável, por antinatural, por ignóbil. Não é pois somente um livro falsandé: é um livro podre; é o romance-vômito, o romance-poia, o romance-pus. ... Este moço é um inconsciente, por obcecação literária ou perversão moral. Só assim se pode explicar o fato de haver ele achado literário tal assunto, de ter julgado que a história dos vícios bestiais de um marinheiro negro e boçal podia ser literariamente interessante. ... Provavelmente o Sr. Caminha já foi embarcadiço, talvez grumete como seu louro Aleixo - o que ignoro. (citado em Howes, 43, Azevedo, 122-3)

A literatura naturalista é intragável: ela força os limites do possível e transforma novos temas em assunto literário, "mapeando regiões até então lacradas à literatura oficial". (Mendes, 33), revelando "os perigos e mistérios da sexualidade" (Mendes, 23) e gerando níveis de ansiedade insuportáveis. Uma história literária francesa resume grande parte da ansiedade do establishment literário e ainda antecipa a grande questão do pós-modernismo:

"(Os naturalistas) apaixonam-se pelo terrível, cedem à necessidade de fazer pasmar o público, e obedecem à lei que condena os recém-vindos a exagerar os seus predecessores: em virtude dessa progressão fatal, certo teremos escritos que farão um ponto de honra de estar para o Sr. Zola como o próprio Zola está para Balzac - mas repito-o, estão de antemão condenados a recuar um dia, seja embora perante o nojo do público ou o alto lá da polícia." (citado em Mendes, 31)Cortiço; Casa de Pensão, O

Até recentemente, Bom-Crioulo ainda era atacado em termos morais. Lúcia Miguel-Pereira, em 1959, escrevia: "O tema, já de si abjeto, é tratado de modo que o torna extremamente chocante, com pormenores de todo em todo desnecessários, por vezes com um mau-gosto declamatório impensável num escritor da categoria de Adolfo Caminha." (citado em Azevedo, 114-5) Já Wilson Martins, em 1978, criticava o livro pelo motivo oposto, pelo tema ser mais ousado do que o tratamento que recebeu, e por as relações homossexuais serem "sempre descritas por meio de perífrases e imagens envergonhadas, mal disfarçando a repugnância do autor e sua condenação moral." (citado em Azevedo, 116) Memórias de um Sargento de Milícias

Além disso, mais do que O Cortiço ou Memórias de um Sargento de Milícias, Bom-Crioulo é a primeira obra da literatura brasileira onde todos os personagens são de classe baixa. Não há mocinha pura e bonita para representar os conceitos tradicionais de feminilidade, não há vilão fácil e irredimível para odiar. Em um romance firmemente entrincheirado no território do "outro", o leitor burguês não tem nenhum personagem confortável com o qual se identificar. (Howes, 56) Não é à toa que o romance causava tanta ansiedade nos críticos.

Diante da avalanche de críticas, Caminha se vê obrigado a fazer uma defesa do livro, no qual faz uma profissão de fé do seu naturalismo:   Bom-Crioulo

"(O Bom-Crioulo é) nada mais que um caso de inversão sexual estudado em Krafft-Ebing, em Moll, em Tardieu, e nos livros de medicina legal. Um marinheiro rudo, de origem escrava, sem educação, nem princípio, num momento fatal obedece às tendências homossexuais do seu organismo e pratica uma ação torpe: é um degenerado nato, um irresponspável pelas baixezas que comete até assassinar o amigo, a vítima de seus instintos. Em torno dele, se espraia o romance, logicamente encadeado, de acordo com as observações da ciência e com análise provável do autor, que, no caráter de oficial de Marinha, viu os episódios que descreve a bordo. ... A julgar como certos imbecis - que os personagens de um romance devem refletir o caráter do seu autor, Flaubert, Zola e Eça de Queiroz praticaram incestos e atos monstruosos. ... Qual é mais pernicioso: o Bom-Crioulo, em que se estuda e condena o homossexualismo, ou essas páginas que aí andam pregando, em tom filosófico, a dissolução da família, o concubinato, o amor livre e toda a espécie de imoralidade social?" (citado por Mendes, 164; Azevedo, 123-4)

Como veremos mais adiante, tivesse Caminha se mantido fiel ao programa acima, talvez não fosse nem lido hoje. A tensão primordial que faz do Bom-Crioulo um grande romance nasce justamente da fratura do projeto naturalista de Adolfo Caminha.

(continua...)


Thursday, January 17, 2008

"Não Entendo a Claudinha!"

A maior paixão da minha vida é observar as pessoas, entendê-las, entrar dentro delas, saber porque fazem o que fazem. A maioria das pessoas não é muito difícil de entender.

Por exemplo, Claudinha é linda, inteligente, talentosa. Passou por vários namorados. Todos homens interessantes que a idolatravam. Um belo dia, conheceu Paulo, que nos dias bons a tratava como se fosse mais uma, nos dias ruins, como se fosse cocô. Casaram em menos de um ano, estão juntos até hoje, dois filhos. Apesar de ser uma mulher independente, forte e liberada, formada e pós-graduada nas melhores universidades (etc, etc), largou dois excelentes empregos para segui-lo daqui pra lá, no melhor estilo mulherzinha.

E eu acho graça porque os amigos entendem mas fingem que não entendem. É assim: "Ai, Alex! O João era lindo, rico, tratava a Claudinha como uma deusa. O Antonio era o homem mais interessante da cidade e beijava o chão por onde ela andava. E ela largou todos eles pra ficar com o Paulo que parece que só não dá na cara dela porque não vale a pena o trabalho!" E, depois de demonstrar que entendeu a Claudinha perfeitamente, a amiga suspira e fala: "Não entendo a Claudinha!" Ué, como não entende? Acabou de explicar tudo.

Em História, a gente tem um mantra: a história, por definição, nunca é paradoxal; você é que não entendeu alguma coisa.

A Claudinha finalmente ter caído na mão do Paulo não tem nada de paradoxal. Afinal, aconteceu, não é? Para os atores do drama, tudo faz o mais perfeito sentido. Se pra você, que está de fora, a relação parece paradoxal, é porque você não entendeu quem eles eram, quais eram seus anseios, o que estavam buscando, etc.

Eu tento sempre fazer o caminho oposto. Eu parto do princípio que, com raras e honrosas exceções, as pessoas acabam sempre vivendo a vida que escolheram viver, mesmo que (quase sempre) não saibam disso.

Por definição, a Claudinha passar pelas mãos de vários homens e só sossegar o facho nas mãos no Paulo não é paradoxal. Claramente, sua relação com o Paulo lhe dá algo que ela precisa e que os outros não davam. Isso é tão patentemente óbvio que me espanta não ser o senso-comum - mas não é.

Mais difícil é descobrir o quê afinal ela vê no tal Paulo. O desafio aqui é julgar não do ponto de vista dos seus próprios preconceitos, mas dos anseios e expectativas do outro. Tem gente que acha levar bofetada uma coisa ruim, tem gente que não vive sem. Conheço até quem goste de lamber pé sujo. Quanto mais você aplicar suas opiniões e valores na tentativa de compreensão do outro, mais você não entenderá nada e mais achará tudo "paradoxal".

Eu adoro a Claudinha. Já passei uns dias em sua casa e, confesso, foi constragedor o esforço dele em não dar patadas nela em minha presença e dela, em fingir que ele era o maridão perfeito e amoroso. Tentarei não me hospedar mais na casa deles. Mas, nesse caso, a maior convivência tirou minhas últimas dúvidas: não é que Claudinha seja sexualmente submissa, como tantas mulheres fortes e independentes que conheço. De certo modo, o tesão dela está na caça. Os seus outros homens já chegavam nela pré-conquistados, babando, idolatrando-a. Já Paulo ela precisa reconquistar todo dia, mantê-lo sempre interessado, agradá-lo. E cada feedback positivo, por menor que seja, é uma grande vitória que compensa tudo.

Quase posso imaginar os dois daqui a quinze anos, ele finalmente se acalmando, ficando mais calmo e amoroso, e ela tendo uma daquelas crises da idade da loba, precisando sair e dar pra todo mundo, porque ele simplesmente não responde mais aos seus anseios, porque ele não lhe dá mais a chance de reconquistá-lo. E o pobre do homem não vai entender nada quando ela finalmente sair porta à fora nos braços de um canalha de vinte.


Wednesday, January 16, 2008

Carolina Maria de Jesus

Assunto: Carolina de Jesus

Caro Alex! Gostei de ter lido algo sobre a vossa ignorancia. De um pulo em Heliopolis e veja quantas pessoas lindas VIVENDO por ali. Ha tantos catedraticos e letrados, a escrever com perfeicao gramatical e ortografica, falando tantos outros idiomas que o portugues, mas deixando de escrever algo de inteligente neste mundo. E continue assim. Meus cumprimentos
Imagino que ele se referia a esse texto.

Porque Não Me Convidam para Festas - UPDATED

Conversa no MSN, postada com permissão:

eu li o livro [Dom Casmurro] por causa do vestibular da unicamp, nao fiquei 'animado' em defender nenhum dos lados

e vc gostou?

eu não sou o maior fã de literatura mas achei um livro bom de ler, no sentido de que não se sente que está lendo, a história flui bem, entende?

hmmm.... um livro bom de ler é um livro que nao se sente que está lendo? isso é um elogio ou uma critica? uma comida boa de comer é a que vc nao sente que está comendo? uma mulher boa de cama é aquela que vc nao sente que está transando?

vou tentar me explicar melhor. li a cidade e as serras do eça de queirós também. também achei muito bom, mas tinha hora que eu ficava cansado de ler descrições e mais descrições

eu soh acho que se vc elogia uma leitura dizendo que ela nao parece leitura, o que vc está dizendo é que leitura é algo intrinsecamente ruim, e que a leitura é tao melhor quanto menos parecer leitura... eh um elogio estranho... eu entendi exatamente o que vc quis dizer, eu soh achei graca.

tipo, acho q não sei quais são os critérios pra um bom livro

oras, o criterio é se vc gostou ou não... quais sao os criterios pra uma boa comida? pra uma boa mulher?

gostei, só não sei explicar exatamente porque gostei

nao precisa explicar, ue. vc gostou e pronto. mas gostar de x pq x nao parece x é engracado... queria te ver na minha casa, comendo o feijao da minha mae. poxa, tia, seu feijao eh tao bom q nem parece feijao!

acho q estou pensando que tenho que agir feito um crítico literário

de onde vc tirou que tem que agir como critico literario?

vc perguntou se eu gostei e eu pensei mais ou menos assim: "e agora? o cara é metido em literatura. dizer que gostei só não vai ser o suficiente"

hahahaaahhaha... vixe, quanto estresse por uma pergunta tao simples

é. sabe, é engraçado que eu nunca imaginei pq algumas pessoas não te convidam mais pra casa delas depois q vc faz perguntas

pois eh, azar o delas

eu fiquei sem saber direito oq falar agora =)

relaxe, homem... tudo comecou pq eu perguntei o que vc achou de um livro e vc quis falar bonito

exato

falar bonito nunca dá certo... fale o que vc quer dizer e pronto...

haha... ja devem ter te falado, mas suas perguntas desarmam completamente a pessoa... sua curiosidade...

as pessoas é que andam muito armadas.

as coisas q vc fala q as pessoas normalmente nao falam por "educação" ou medo ou sei lá

nao foi facil, viu? tive que desaprender tudo o que me ensinaram

Update

Dois comentários:

pô Alex, se o msn te causa tanto problema assim, por que vc. não muda pro skype? acho muito melhor.
Problema? Onde foi que você viu problema??
"confesso que nao entendi tua perplexidade frente à afirmacao dele de q "um livro bom de ler é um livro que nao se sente que está lendo". ele tinha acabado de dizer que nao gosta de ler, que nao "é o maior fã" de literatura! se eu te digo que nao gosto de feijao e voce ainda assim me obriga a provar o feijao que voce fez, voce ia achar estranho se, caso eu gostasse, eu dissesse: "seu feijao eh tao bom q nem parece feijao"?"
Em minha defesa, eu posso dizer isso: eu não saio por aí perguntando pras pessoas o que elas acham de livros. Meu amigo é que puxou o assunto Dom Casmurro da cartola e eu perguntei, inocentemente, por falta de outra coisa pra dizer, o que ele tinha achado. E foi daí pra baixo.


Monday, January 14, 2008

O Problema da Moradia em Cuba

Matéria no Granma de sábado admite o sério problema da habitação e promete 50 mil novas casas ainda esse ano. Um dos capítulos do meu livro sobre Cuba, Radical Rebelde Revolucionário, é justamente sobre isso: "Quem Casa Quer Casa". Abaixo, um trechinho:

* * *

Paseo Marti, área nobre de Havana Velha, dez da manhã de sábado. Há uma pequena multidão na rua, carregando cartazes, conversando. Dêem uma olhada nas fotos abaixo. Eu penso: ué, manifestações políticas públicas não são proibidas? Curioso que sou, puxei um cubano e perguntei o que estava acontecendo. Tratava-se de uma feira informal de permuta de imóveis. (...)

Real Estate Fair

O governo costumava construir conjuntos habitacionais – pra lá de onde Trotsky perdeu as botas, horríveis, enormes, estéreis, parecendo ter sido projetados por um alemão oriental autista que estagiou com Oscar Niemeyer – mas agora, sem dinheiro dos russos, nem isso.

Se você quer sair da casa dos seus pais e morar sozinho, desista. Se você se casou e quer ir morar no seu cantinho com seu esposo, esqueça. Em Cuba, a família é como a Máfia: ninguém sai. Só morto.

De todos os problemas que o país enfrenta, talvez a falta de moradia seja o mais desesperador.

Real Estate Fair at the Paseo

Ao contrário de Nemesia, que torce para a sogra escorregar no chuveiro, Francisco não parece ter pressa para a morte da mãe. Provavelmente por amor. Talvez por dignidade humana básica. Talvez porque tanto Francisco quanto Tobias têm seus próprios quartos em suas casas. Talvez porque, de qualquer modo, não seria politicamente prudente que morassem juntos. Francisco está preocupado com outra morte: a de Fidel e o caos generalizado que, segundo ele, se seguirá. (...)

Chegamos num ponto da história em que mesmo os maiores inimigos de Fidel receiam sua morte: pelas esquinas de Havana, trocam-se cenários apocalípticos pós-Fidel como, em outros lugares, trocam-se fofocas sobre Angelina Jolie e Brad Pitt. Fica-se com a impressão de que a morte do Fidel trará nada mais nada menos que o fim da civilização. Dado o que aconteceu na Rússia, não é um temor infundado. (...)

Na Roma Antiga, o poder dos patriarcas era absoluto e incontestável. Enquanto seu pai fosse vivo, mesmo que você tivesse cinqüenta anos e fosse senador, ele podia te matar – legalmente. Ninguém ficaria espantado de saber que, nessa sociedade, parricídio era mais comum que restaurante vegetariano na Califórnia. Para muitos homens ambiciosos, matar o pai era o primeiro e mais necessário passo da vida pública.

E eu fico pensando cá com meus botões qual deve ser a taxa de familicídio na Cuba de hoje. Quantos jovens apaixonados não matariam sem hesitar uma avó gosmenta para viver juntos em seu ninho de amor? Chega a ser romântico, um ato extremo que selaria a união dos pombinhos: matamos primeiro minha mãe ou a sua, meu amor?

* * *

Radical Rebelde Revolucionário

Para ler o texto completo, e outros mais, compre o ebook Radical Rebelde Revolucionário - Crônicas Cubanas, à venda pela internet por apenas R$20.


Sunday, January 13, 2008

Stripfeet

Estou voltando pra Nova Orleans amanhã. Comentário de uma amiga querida, queridíssima que eu não consegui ver durante minha estada no Rio:

voce agora so sai com a mirna, com a morna :-) comigo nem uma aguinha de coco... deve ser pq eu n faco stripfeet p vc

Os Cds do Meu Carro

Lulu passou o fim de semana no Rio, andou no meu carro, ouviu minha seleção de CDs e comentou: "se esses seus fãs-leitores souberem dos seus gostos musicais, eles te desguruzam de vez". Bem, com tão nobre objetivo em mente, aqui vão os 10 CDs atualmente no meu carro:

  • Amazônia É Brasil - Turíbio Santos e Carol McDavit (adoro o violãozinho do Turíbio)
  • The Essential of Heitor Villa-Lobos (muito bom)
  • McHits - 10 Sucessos do Pop Rock Nacional (horrível, eu sei, eu sei, achei no meio da tralha da mudança, devia ser da ex-mulher mas fiquei curioso pra ouvir porque não conhecia as músicas)
  • Filarmônica na Rocinha - Ao Vivo - Projeto 2001 (legalzinho, mas seleção fraca)
  • Queen Live Magic (um bom disco ao vivo do Queen)
  • 25 Poesias Lidas por Luiz Biajoni (também achado na mudança, vale pelas poesias do Tiago Neloah)
  • Ibrahim Ferrer (seu primeiro disco solo, tinha que ter alguma música cubana)
  • Há Dez Mil Anos Atrás -Raul Seixas (o primeiro disco do Raul que comprei e ainda o meu preferido)
  • Floresta do Amazonas - Heitor Villa-Lobos e Bidu Sayão (maravilhoso)
  • Modinhas - Capella Brasilica (música brasileira e portuguesa de salão dos sécs XVIII e XIX; lembrem-se que o século XIX é o meu século)
Pronto. Fãs do LLL, don't let the door hit you on the way out.


Saturday, January 12, 2008

O Peso de Um Segredo

Eu sempre gostei de saber de todas as histórias sobre a vida de todo mundo. E, como bom contador de histórias que sou, também sempre gostei de passá-las adiante.

Algumas pessoas chegam ao cúmulo de me chamar de fofoqueiro, mas prefiro o termo técnico: jornalista.

Enfim, odeio guardar segredos. Acho que as boas histórias têm que ser contadas. Ser contada é a razão de ser de qualquer história. Uma boa história não contada morre de solidão.

Toda vez que alguém me pede segredo de alguma coisa, eu morro um pouco.

Não posso contar pra ninguém?

Não.

Nem mudando os nomes?

Não.

Nem se eu mudar os nomes, os locais, os fatos?

Não, não, não!

Ou seja, tortura.

Sobre a minha vida, não tenho segredos. Qualquer coisa que diga respeito a mim e que não seja pública e notória é porque envolve a privacidade de algum outro.

Segredos são cancerígenos. Eles andam dentro da gente pulsando, apodrecendo, querendo sair. Ninguém me tira da cabeça que essas pessoas que fazem um check-up e, quando vão ver, estão podres por dentro, é porque carregavam segredos demais.

A Pizza Inteira


Antigamente, quando eu era mais jovem e ansioso, eu prometia segredo em troca da confidência:

Alex, eu só te conto se você não contar pra ninguém.

Ninguém? E se for só pra uma pessoa?

Pra ninguém! Senão, não conto.

E minha curiosidade vencia, eu baixava a cabeça, derrotado:

Tá bom, conta.

Eu saciava aquela vontade irreprimível, aquela curiosidade louca, mas era como devorar uma pizza inteira sozinho: bom na hora, mas depois pesa. E eu era obrigado a andar pela vida carregando o peso daquele segredo que nem era meu, que eu não queria carregar e nem podia passar adiante, pustulando dentro de mim.

Tancredo e Woody


Dizem que um jovem político chegou pro Tancredo e disse que tinha um segredo pra lhe contar, mas que ele não podia contar pra ninguém.

E Tancredo respondeu:

Meu filho, se você, que é o dono do segredo, não consegue guardá-lo, imagine eu!

Em Desconstruindo Harry, de Woody Allen, o protagonista homônimo é um escritor odiado por todos os seus conhecidos (especialmente ex-mulheres) por incluir detalhes deles em seus livros.

Harry está errado? Claro que não. Todos os escritores são assim. Vai ver faltou avisar os amigos.

Chega de Declarações em Off


Pois agora chega. Virei o Cabo da Boa Esperança. Já tenho 33 anos.

Minha paz de espírito e minha saúde mental são mais importantes do que satisfazer meus impulsos de curiosidade. Se for segredo, então eu não quero saber. Não precisa contar.

Ok, eu admito, eu até quero saber, mas agüento ficar sem saber. O que não agüento é carregar mais um segredo.

Entrou pelos meus ouvidos ou olhos e é bem capaz de acabar saindo pelas pontas dos dedos. Tudo o que eu sei ou posso vir a saber é matéria passível de ser incluída em algum futuro romance. Quem não gostar disso, não fale comigo, não ande comigo, não pague micos na minha frente.

Alexinho não aceita mais declarações em off. Só me contem o que eu puder passar adiante, citar na matéria ou incluir no enredo. Senão, calem-se para sempre. Prefiro ler Caras.

Nem mesmo os meus segredos eu carrego, não vou carregar dos outros.


Voltar para Liberal Libert‡rio Libertino